O US Open concedeu credenciais a cerca de 100 influenciadores e criadores de conteúdo para o torneio em Nova Iorque, o dobro do ano passado, e a presença deles reacendeu o debate sobre como levar o ténis a um público novo sem desrespeitar as regras não escritas do jogo.
No Arthur Ashe Stadium, a principal arena do torneio, com capacidade superior a 23.000 lugares, as regras de etiqueta são conhecidas: não perturbar os jogadores durante os pontos é considerado uma cortesia básica para os espectadores.
A número quatro do mundo, Coco Gauff, defendeu a entrada de novos públicos, mas fez uma ressalva.
“Acho que é fixe ter um novo perfil de público e acho que ajuda a fazer crescer o desporto”, afirmou. “Mas se és convidado para um tapete vermelho, não apareces de ganga. Acho que basta seguir a etiqueta do desporto. É só isso.”
Sessão fotográfica durante o jogo de Osaka
Durante a estreia de Naomi Osaka, bicampeã do US Open (em 2018 e 2020), no Arthur Ashe, um grupo fez uma sessão fotográfica no seu camarote enquanto o jogo decorria. O grupo ligou um anel de luz portátil durante um serviço de Osaka, o que levou o árbitro a fazer uma advertência.
Quando Osaka regressou na quinta-feira, o árbitro teve de pedir silêncio à assistência várias vezes.
“Hoje o árbitro pediu à plateia para se calar mais vezes do que alguma vez ouvi um árbitro pedir”, disse Osaka. “Costumo dizer que me concentro sempre no jogo e no court, mas houve um momento em que havia pessoas a gritar e dava para ouvir com toda a clareza.”
Um vídeo que se tornou viral mostra um grupo a falar alto enquanto se filma durante o jogo de Osaka na terça-feira, o que levou o árbitro de cadeira a pedir-lhes que parassem.
“Acho que, se vais a um evento desportivo, tens de respeitar o desporto”, afirmou Osaka. “Acho que é cortesia básica informares-te sobre o desporto, sobretudo sobre a etiqueta.
“Pode ser bom para as pessoas tornarem o ténis popular junto do seu público específico, mas acho que tem de ser gerido muito melhor, sobretudo em situações como o meu jogo de estreia.
“No geral, acho que há grandes vantagens. Queremos que as pessoas continuem a fazer crescer o desporto.
“Só acho que tem de ser de uma forma em que todos conheçam as regras e a etiqueta.”
Mais benefícios do que desvantagens ou exagero?
O Arthur Ashe é o maior estádio de ténis do mundo, e os jogos são frequentemente acompanhados por um zumbido de conversas nas bancadas.
O sétimo cabeça de série masculino, Daniil Medvedev, que já teve uma relação complicada com o público de Nova Iorque, considera que tudo o que atraia mais olhares para o ténis só pode ser positivo.
“Acho que quanto mais tentarmos sensibilizar as pessoas para o ténis, melhor, quanto mais popular o desporto for”, disse o russo. “Quanto mais o desporto crescer, melhor. Confio na USTA [a federação organizadora do torneio, a United States Tennis Association] no que está a fazer.
“Acho que há muito mais benefícios do que desvantagens, por isso avancem.”
O norte-americano Frances Tiafoe, 11.º cabeça de série, elogiou a diversidade do público em Nova Iorque.
“Acho que o Open é ótimo porque aparece todo o tipo de gente que quer ver ténis”, afirmou. “Pessoas de todos os caminhos de vida, com profissões diferentes. Pessoalmente, adoro isso.
“Não tenho problema nenhum com ninguém que venha ver o ténis.”
A norte-americana Jessica Pegula, número três do mundo, mostrou-se mais crítica e considerou que parte do comportamento foi “desrespeitoso”.
“Compreendo que os influenciadores venham mostrar a experiência do US Open”, disse Pegula. “Mas acho difícil quando se veem vídeos de pessoas a tirar fotografias e a usar luzes para selfies.
“Há gente lá em baixo a tentar competir. É a carreira e o trabalho deles. Parece um pouco desrespeitoso.
“Acho que este ano se tornou um bocadinho exagerado.
“Compreendo um dos lados, mas quando o outro lado interrompe literalmente os jogos, torna-se complicado.”
Um torneio cada vez mais virado para o espetáculo
O US Open introduziu em 2024 uma política de livre circulação dos adeptos, o que significa que deixam de ter de esperar para ocupar os seus lugares nas mudanças de lado.
Um ano depois, o torneio foi alargado para 15 dias. A semana anterior ao quadro de singulares passou a ser promovida como a “Fan Week”, que inclui a competição renovada de pares mistos e exibições entre jogadores do passado e do presente.
Tudo isto faz parte daquilo que o diretor executivo do torneio, Craig Tiley, espera que se torne “a Disneylândia do ténis”.
Questionado sobre a acreditação de influenciadores numa conferência de imprensa antes do torneio, Tiley afirmou: “Precisamos de encontrar formas de chegar a novos públicos, de chegar às pessoas da maneira como elas se relacionam hoje com os media.
“A criação da credencial para criadores de conteúdo tem sido uma peça-chave, porque nos permitiu falar com as pessoas de uma forma que elas ouvem. Tem sido um grande foco.”
Desde o incidente no jogo de estreia de Osaka, aumentaram as mensagens nos ecrãs do recinto a lembrar aos espectadores que devem “abster-se de qualquer atividade que possa perturbar o jogo, incluindo o nível de ruído, a fotografia com flash e as luzes para selfies”.
A USTA afirmou num comunicado que “procura continuamente fazer crescer o ténis neste país e trazer novos públicos para o desporto”.
“Queremos que todos os nossos adeptos e convidados tenham uma experiência incrível quando nos visitam, mas também temos de garantir que não interferem com a ação e a competição no court”, acrescentou.
“Estamos constantemente à procura de formas de garantir que os adeptos nas bancadas saibam o que é permitido e o que é proibido.”